Enfim, conheci o responsável pela minha vida de fracassos. Durante anos eu achei que fosse meu pai, minha mão e o filho da mãe era o meu melhor amigo. Era a pessoa que eu mais confiei nesses anos todos. Também achei que fosse minha mãe, por que ela instalou crenças de fracassos que foram determinantes para meu desenvolvimento limitado ao longo de minha infância, juventude e parte da minha vida adulta. Minha mãe tinha um prazer mórbido quando me dizia que eu seria um eterno fracassado. Eterno não por que nesta terra nada é eterno. Não aqui, contudo, ela me fez acreditar que eu seria um fracassado enquanto vivesse. Que nunca teria uma família feliz, estruturada, "por que ela nunca teve". Eu estava lá e fui testemunha disso.
A medida que os anos passavam, percebi que já não adiantava culpá-la mais pelos meus fracassos por que não era ela a culpada. Era o meu melhor amigo, a pessoa que confiei mais do que minha mãe, mais do que meu pai. O meu melhor amigo era a última pessoa que me arrastaria para uma vida de mediocridade e não realização que eu iria suspeitar. Eu acreditava que ele nunca faria isso comigo por que eu confiava nele, respeitava ele e nem mesmo o que Deus dizia a meu respeito tinha tanta relevância quanto o que o meu melhor amigo pensava a meu respeito. Mas eu estava enganado. Como pude ser tão tolo! como pude confiar nele a ponto de fechar os meus olhos para a verdade como fechei!? Não dei ouvidos a ninguém mais por que o que o meu melhor amigo pensava e dizia a meu respeito eram mais importantes para mim do que o que o meu pai e minha mãe que lutaram o quanto puderam para me ver destruído moralmente, fisicamente, diziam a meu respeito.
Está certo, fui enganado pelos meus pais n'algum momento, até pelo fato de meus pais deixarem claro como água cristalina de uma fonte para mim que eu não era seu filho legítimo, então, eu tinha descoberto os responsáveis pelo meu fracasso na vida. Fracasso como homem, como empreendedor, como pessoa, como pai de família, como marido. Eu havia sido uma pessoa medíocre durante grande parte da da minha e a culpa era deles. Eu pensava que era assim, mas quando a verdade veio à tona, tive um choque. eu não queria acreditar. Como era possível que a pessoa que mais confiei toda a minha vida tinha sido o responsável pelos fracassos e escolhas erradas que fiz em minha vida até aqui, com quase 40 anos de idade. Não tenho palavras para descrever o tamanho do meu choque. Fiquei sem chão. Como essa pessoa me influenciou todos esses anos e não percebi que estava caindo numa cilada preparada pelo meu melhor amigo!
Depois de anos eu não sabia se tinha estrutura para encarar essa pessoa frente a frente de novo. Eu não sabia se conseguiria olhar nos olhos dele e dizer as verdades que certamente ele merecia ouvir. No entanto, um encontro face a face com esse cara era inevitável. Para o meu próprio bem eu deveria encara-lo face a face. Eu precisava que ele entendesse que ele influenciou o curso da minha vida até àquela altura e que eu não poderia mais viver daquele jeito. Não, não foi fácil encarar esse homem asqueroso. não foi fácil ficar olhando para a cara dele, que durante todos aqueles anos me fez acreditar que eu era a vítima. Ele culpava meus pais por eu ter me tornado um ninguém caminhando para lugar nenhum, sem amigos importantes. Esse desgraçado me fez ter ao meu redor pessoas com a estima tão baixa quanto a minha por que quando pessoas admiráveis queriam se relacionar comigo eu dava um jeito de afastar essas pessoas com minha auto comiseração. Eu precisava dizer isso a ele cara a cara, precisava deixar claro o que eu estava sentindo e que meus pensamentos a respeito de mim mesmo haviam mudado ao longo dos anos.
Houve um tempo que ele fugiu. ficou um bom tempo sem aparecer. Fiquei feliz com a suposta ausência dele, então, quando ele ressurgiu, eu acabei tomando um susto. Ele estava um pouco mudado e pude observar isso e sua expressão. Conversamos durante horas, dias, semanas, talvez. Pude perceber que ele havia mudado realmente e que, a despeito do que pensassem a meu respeito, o que era importante era justamente não o que eu pensava a meu respeito, mas o que Deus pensava a meu respeito. Pude compreender que ele queria concertar os anos de engano que ele me fez viver. Eu disse a ele que ele me fez culpar os outros pelos meus fracassos. Ele olhou fixamente para mim e me disse que só cabia a mim continuar acreditando nessa mentira. ele me disse que um dia, quando não tivesse ninguém mais perto de mim para culpar e a minha vida continuasse medíocre e sem realizações consideráveis, então eu passaria a culpar a mim mesmo. Eu respondi que isso havia ocorrido há algum tempo. Ele então sorriu para mim e disse que esse era o melhor momento para eu assumir toda e qualquer responsabilidade pelo rumo que a minha vida, a da minha família que são minha esposa e meus filhos tomaria.
Finalmente eu havia entendido. Levantei-me da poltrona, perdoei-lhe sinceramente e enfim...
...guardei o espelho.